crônica

WHY?

22 de fevereiro de 2017

 

– Because, hã, eu pensei que ela não precisava… – Pensou errado. Ela precisa. Ela não pode entrar no Estados Unidos como brasileira porque ela é americana. – É que eu pensei que porque ela tem dupla cidadania e também só dois aninhos… – Pensou errado.

Vai ver eu mereço. Eu fico aqui ruminando as coisas, o jeito que essa mulher me tratou no consulado americano, o jeito que aquele homem gritou comigo no trânsito, eu conhecia aquele homem, ele não me reconheceu quando ele me viu, enquanto ele me chamava de barbeira, retardada, ele não olhou pra mim. Era o pai de uma amiga minha.

Eu já xinguei alguém no trânsito? Já. Uma vez um retardado (retardado é um ótimo adjetivo para xingar alguém no trânsito), porque é isso, um retardo que te fecha a 100km por hora numa moto, e quase mata vocês dois, é claro que eu segui esse retardado até parar o carro do lado dele e abrir o vidro: seu retardado! Quer se matar? E ele da moto me grita: – Vagabunda!

Eu sou vaca. Eu posso ter chifres e pastar e fazer muita merda, mas eu dirijo como raras pessoas. Hoje, inclusive, enquanto levava meu filho pra escola, fiz uma manobra de Ayrton Senna e meu filho falou: ­– Mamãe, você é pilota.

_ Barbeira! Vagabunda!

Por mais que eu não conhecesse essa pessoa, essa pessoa que me xingou dessas coisas não era o pai da minha amiga, era um motoqueiro que nunca fez parte da minha vida, eu nem lembro da cara desse motoqueiro, mas ele também acabou com meu dia me xingando daquele jeito.

E no dia do pai da minha amiga me chamando de barbeira, retardada mental…

E hoje a moça do consulado também não tinha um coração.

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Vanessa Agricola

Autor

Vanessa Agricola Moo

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