crônica

UMA TAÇA OU UM TROÇO

3 de maio de 2016

Faz tipo um mês que eu acho que eu vou ter um troço. Eu sempre fico mal em Agosto. Não sei se vale a pena enumerar os motivos, até porque, com o tempo, a gente aprende que o motivo pra chegar a beira de um troço esta na a gente mesmo. Mas se eu tivesse uma desculpa pra essa crise de agora, então a culpa é a maternidade. Ser mãe é pros fortes. Ser mãe de dois bebes, um seguido do outro, é pros loucos. É bem aí onde eu me encaixo. Uma louca na varanda, meia noite, tentando relaxar os músculos do pescoço com um massageador de bolas e uma garrafa de vinho.

 

Eu nem gosto tanto de vinho, me da sono, mas eu descobri que o vinho é a coisa que mais combina com cigarro no mundo, mais do que café, e que também o vinho relaxa os músculos do pescoço, embora menos que a massagem da Margaret, que nesse mês de agosto esta se separando (te digo que é um mês maldito), e já faz três semanas que ela não vem.

 

Uma coisa que eu não sei, eu que antes não tomava vinho, é se posso viciar com a mesma facilidade que me vicio em cigarro. Segundo o Fernando ­­– um primo entendido de vinhos que me comprou essa garrafa porque eu liguei pra ele do Pão de Açúcar perguntando que vinho eu comprava, e ele me disse, “no Pão de Açúcar nenhuma!, deixa que eu te escolho umas garrafas e mando entregar na sua casa” (sim, o Fernando é gente boa) ­–, se eu viciar em vinho, ele vai ficar orgulhoso.

 

Mas voltando ao troço, chega essa hora do dia, quando os bebês já mamaram e eu tenho certeza que estarão dormindo por pelo menos três horas seguidas, eu venho aqui na varanda, com uma garrafa de vinho do Fernando, e acendo um cigarro, e deito na rede, e fico no celular pesquisando tipos de terapias, bioenergética, antroposófica, macumba, qualquer coisa que me salve de forma rápida. Mas a internet tem tantas coisas, e o vinho me dá tanto sono, que acabo dormindo. E amanhã eu acordo de novo achando que eu vou ter um troço.

 

O Doutor Marcelo vai ler isso e dizer: puxa, ela voltou a fumar. Doutor, fumar consiste em alguns minutos sozinha e a solidão é uma dádiva. Pra quem tem dois filhos, empregada, marido e babá, estar sozinha fumando na varanda é como ir pra Bahia de férias. Também fumando eu consigo inspirar e expirar, mesmo que só fumaça. É a meditação transcendental dos pobres mortais como eu.

 

Bom, cheguei agora do show do Caetano e Gil, a babá disse que as crianças dormiram bem, e o Gil cantou aquela música do Bob Marley, ‘Saying don’t worry about a thing’…  Essa garrafa de vinho esta melhor que ontem.

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Vanessa Agricola

Autor

Vanessa Agricola Moo

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