crônica / diálogo

UM IDIOTA COM A MINHA AMIGA

3 de outubro de 2016

Ela é alcoólatra. E surda. Não te escuta uma palavra, pode gritar porque ela não te escuta. _ Nem uma tacinha, bailarina? Ela é alcoólatra, seu idiota. E ainda bem que ela é surda e não ouviu quando você a chamou de careta. O dia que você nasceu ela estava deitada no chão de uma cozinha, com o fogão aceso, o fogão não, só o gás. Quase morreu tantas vezes que desistiu. Mas você não desiste, “bailarina, brinda comigo aqui, por favor”. Se eu fosse ela te mandava tomar no cu. Mas ela te responde com doçura, “desculpa, eu não bebo, me faz mal”. Aí você aponta pro cigarro que ela está fumando e comenta que mais que isso daí sim que faz mal. “E ainda não dá nenhum barato, hehehe”.

Tem desses chatos por aí… Você é uma dessas espécies raras de chatos, tão chato mas ela nem percebeu. Ou pelo menos eu acho que ela não percebeu, porque ela sorri do que você diz, e sem nenhuma ironia confessa que de verdade ela prefere fumar outra coisa, mas que na festa não tem como.

Eu ando fazendo ginástica, coisa que eu odeio, e durante aquela esteira interminável eu escuto o Prem Baba no Youtube. Vale a pena. Que você terá evoluído, e vai estar em paz, quando for capaz de reverenciar todas as pessoas, não importa que pessoas. Não importa se por exemplo deste idiota você tem que reverenciar. Ela é alcoólatra, e surda, mas te recebe tirando uma da cara dela com ternura; você já tirou um sarro porque ela é lenta, porque ela demora pra responder o que você pergunta, – o quê?, toda hora, porque ela não quer brindar, porque ela fuma. Mas perceba, minha amiga alcoólatra e surda responde sempre a este idiota com ternura. E o mais miraculoso é que no fim das contas, ele se rende a simpatia dela, porque ela é tão de verdade, ela contou pra ele que não pode beber, ela explicou que quase morreu, e tudo com humor. E de repente, você se mostra uma pessoa diferente do começo, “que bom que você parou”.

Você chama o garçom, a minha amiga me cutuca: – Esse cara estava com uma aliança no dedo quando entrou na festa, agora ele está sem.

Eu que não sou alcoólatra, nem surda, não notei.

Ele chama ela de volta, – Onde é mesmo o lugar que você mora? – O quê? –O nome do lugar que você mora?? – Ah, Galícia! Eu não escuto direito e com essa música! – Saúde, francesinha!

Ele não sabe onde fica a Galícia, Prem Baba.

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Vanessa Agricola

Autor

Vanessa Agricola Moo

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