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TENTANDO SER MARIO ANTÔNIO

6 de junho de 2017

Comecei a tentar ser Mario Antônio num hotel desses de família, bem gostoso, no meio do mato. Sentei na frente da varanda do quarto, que não é bem uma varanda é um portal para a floresta, estava ouvindo os grilos e pensei: é agora.

Será que só de ouvir o barulho dos grilos já não é ser um pouco Mario Antônio? Não. Preciso me sentar ereto. Desconfortável. Preciso me sentar ereto e confortável. Não consigo. Arrasto uma segunda cadeira para o meio do mato, com as árvores logo na minha frente e um arbusto gigante do meu lado esquerdo. Sinto medo dos bichos. Apoio os pés na outra cadeira. Não é assim que Mario Antônio senta.

Estou sozinho de frente da floresta. Talvez já sou Mario Antônio, estou sozinho, sentado, confortável, ouvindo os grilos. Não. Mario Antônio já me explicou que o silêncio é bom, qualquer silêncio, olhar o horizonte, mas Mario Antônio faz mais do que ficar em silêncio. Mario Antônio fecha os olhos, então eu também fecho.

Você acredita que Mario Antônio já foi muito gordo. Eu vi uma foto dele adolescente, pesava uns 150 quilos. Ele me contou que não se sentia confortável nessa época. Não conseguia sentar ereto. Vivia intranquilo, tinha vontade, toda hora, de estalar o corpo. Podia intuir que seu corpo precisava estalar. Alongar, estivar. Aí Mario Antônio começou a praticar ioga. Alongar, se esticar, assim manteve a postura ereta.

Eu conheci o Mario Antônio numa praia. Eu estava deitado com a pança pra cima, quando um sujeito muito feliz, e com a postura ereta me acordou. – Oi? Desculpe eu te acordei. – Não, tudo bem. – Você sabe se aquele morro tem alguma trilha? Haha.

Eu mal tinha percebido que havia um morro atrás da praia. Mas acabei aceitando a oferta daquele ser humano feliz e com a postura ereta para subir o morro e abrir uma trilha e ver o pôr do sol, lá de cima. Qualquer pessoa que esteve com Mario Antônio se apaixonou. Não por ele. Pelo morro. Pela trilha. Pelo pôr do sol e o barulho do grilo.

Subimos o morro juntos, depois viajamos e ficamos amigos. Com o tempo, rompi a barreira da admiração instantânea e exagerada, porque o que é que tem demais esse cara, ele é só uma feliz e com a postura ereta. Tive coragem de perguntar: Mario Antônio, como é que faz pra dar tanta risada?

Mario Antônio e eu estávamos tendo essa conversa logo que eu me separei. Mario Antônio me contou que também em uma separação ele se sentou de forma confortável, ereto, fechou os olhos e respirou por vinte minutos. No começo foi difícil, a perna dormia, Mario Antônio dormia. – Hoje eu sei que eu preciso meditar. Eu consigo fazer isso olhando pra essa praia. Ou se eu estou em São Paulo, nas trevas, eu medito.

Resta dizer que Mario Antônio é carioca e mora em Búzios. Ele consegue ganhar dinheiro trabalhando no computador de bermudão. E ao completar um trabalho sempre viaja. Já acampou na Patagônia oito meses e namorou uma francesa que não lavava a xoxota – Um dia peguei um sabonete, levei ela pro chuveiro (tem um chuveiro no acampamento da Patagônia), falei: – amor, toma um banho.

Se eu meditar, você acha que eu fico igual você, Mario Antônio? Ele achou engraçado. Não sei que piadas fez e aí eu também ri. Mas hoje eu me lembrei o que ele me disse.

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Vaca

Autor

Moo

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