conto / crônica

MARCO PÉ FRIO

7 de dezembro de 2016

Eu estava naquele boteco que o Marco Pé Frio frequentava, do lado do teatro que ele ia, por causa do ator, o ruivo. Quando ele me convidou pra ver uma peça dele (ele, o ator ruivo) no teatro, mas antes da peça marcou de me encontrar nesse boteco, o mesmo do Marco Pé Frio…

Eu nem vi o Pé Frio no boteco. Na verdade, a hora que eu cheguei, eu cheguei achando que aquilo nem ia ser um boteco, achei que era um restaurante, me arrumei toda chique, como se arrumam as pessoas que vão para um date em 1900… Porque eu tenho um pé em 1900. E o ator ruivo veio do futuro: “Nos encontramos lá?”. E de “lá”, do meio do boteco, de uma mesa com mais umas vinte pessoas com quem ele estava sentado, me viu entrando: – E aí, sumida! E a partir daí ele cumprimentou homens e mulheres com um selinho na boca.

– Muah, e aí, meu chapa. Muah, fala minha amiiiiga!

Graças a deus chegou a hora da peça. O teatro era ali do lado, fui andando sozinha (o ator ruivo e suas amigas foram juntos pra coxia), sentei sozinha numa fileira, numa poltrona ao lado do Marco pé frio. E nem nos falamos. Quando o terceiro alarme soou, as cortinas do teatro eram vermelhas (ufa, em 1900 as cortinas também eram vermelhas), eu sentia como se o veludo, o vermelho, o teatro, me abraçavam, e eu não sentia solidão, sozinha, sentada ao lado do Pé Frio.

Cinco atores entram em cena. Fizeram uma piada sobre o cenário político, cadê o ruivo? Chegou, com uma televisão de tubo enfiada na cabeça, fazendo o âncora de um programa de notícias, disse alguma coisa. A plateia gargalha. Marco Pé Frio, até então o cidadão anônimo sentado do meu lado,  gargalha mais que a plateia. E continua. Por que as poltronas são tão apertadas? O coitado deve ter um metro e noventa, cada gargalhada que Marco Pé Frio dá, a fileira inteira sacode, a nossa, a da frente, ele não devia se mexer. Mas ele ri, e ri, e eu começo a prestar atenção naquele pé.

Feio, como devem ser os ruivos, engraçado, como devem ser os feios, a primeira vez que eu vi o ator ruivo, eu fiquei rindo dele igual o Marco Pé Frio. Estávamos (eu e o ator ruivo) na mesma boate, eu dançando Prince, you don’t have to be cool, ele se aproximou–Fudido! A peça acabou. O ator ruivo se curva diante da plateia, extasiada com sua graça, Marco Pé Frio grita, assobia, aplaude: –Merda!

Precisei me encolher o máximo que pude para que Marco Pé Frio pudesse passar. Eu atravancando a fileira, decidindo se levantava ou não da poltrona, será que o ator ruivo vem me buscar, ou acorda, garota, vai pra casa? Com toda aquela altura, Marco Pé Frio pisa no pé meu dedinho do pé calçado em lindas sandálias: –Me desculpe.  – Tudo bem. – Você não estava no boteco, agora pouco? Prazer, Marco.

As pessoas saem rápido do teatro. De repente ficamos ali sozinhos, conversando, Marco Pé Frio calça quarenta e cinco, eu calçava trinta e quatro (não calço mais, meu pé cresceu). Colocamos os nossos pés, um do lado do outro, como era possível? Mas foi sendo. No começo na casa dele, depois na minha, depois mais vezes na minha, que era mais perto do trabalho dele, até que surgiu uma escova de dentes. E depois de meses (precisamente nove semanas), um telefonema do ator ruivo: – E aí, sumida?

Marco Pé Frio achava graça de coisas que tinham graça, não era um bobo que ri à toa, era sagaz, tinha espírito (e não deixava nada a desejar para o ator ruivo no quesito talento, Marco Pé Frio era muito talentoso no que fazia, só que não era um ator). Ele dizia que eu era cheirosa. Que eu não dava minha opinião sobre todas as coisas. – E aí, sumida?

Saí do banho, enfiei sua escova de dentes numa mochila (era minha mochila preferida, queria deixar alguma coisa minha com ele, o meu cheiro de mochila), o livro “Conversas com Woody Allen”, uma camiseta rosa. Deixei na gaveta seu par de meias. As meias que ele dormia com elas. E transava… Ele brincava que o termo “meia bomba” era por causa da meia, e ria…

A história com o ator ruivo deu em nada.

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Vanessa Agricola

Autor

Vanessa Agricola Moo

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