crônica

MAMBUCABA

28 de junho de 2016

Quebrou um prato. Estava com frio e não se aguentou com as mãos, com os dedos gelados que não seguram os objetos, o prato caiu, e ainda estava rindo, além de tudo, também teve esse desequilíbrio da demência pra ajudar, hahaha, e quando o prato caiu ele riu mais ainda, estava rindo ainda quando tomou o tapa, pá, _ tá rindo de quê, babaca?

Como quando faz muito frio às vezes, e não há nada que se possa fazer contra o frio, por exemplo o frio na frente do mar, as partículas de onda e vento na cara, estava na hora de ir embora, não tinha mais o que fazer pra agradar, tinha mais 451 casas em Mambucaba _ 452 menos a casa da Gisele que pegou fogo, não foi reconstruída_ e ainda tinha o mundo. Mambucaba era um cubículo.

A casa ficava na rua Pará, 25, começava lá no campinho de futebol, isolado pela vegetação que margeava o rio Mambucabinha (sempre foi o lugar onde faziam merda, os meninos batiam punheta nos troncos das árvores, disputando quem gozava mais longe), e o rio olhava para a vila histórica, do outro lado do rio tinha uma vila histórica, sim, tinha uma vila histórica, com direito a quilombo, senzala, igrejinha, tinha sido batizado lá.

Era uma infância solto na rua, roda de amigos sentados na sarjeta da rua Ceará, brincou de salada mista a primeira vez na rua Ceará, de frente da casa da Carolina, que era maluca mas ele gostava dela. Outros tempos jogava queimada na Maranhão, de frente da casa da Bianca, mas só porque na frente da casa da Bianca é que ficava o paralelepípedo, era perfeito o paralelepípedo, eles usavam pra separar os times, dava pra jogar de noite, não precisava giz.

Até o dia que foi parar no Campestre, na matinê Disco Baby, e viu a Carolina dançar. Ele dizia que era uma música em inglês, ele dizia que a Carolina era bonita, mas a Carolina gostava de dançar as Paquitas, infelizmente a história não consta com a Carolina dançando um Prince, you don’t have to be rich to be my girl. Era coreografia, a Carolina dançando mais desengonçada que as outras meninas, era um terror a Carolina, era muito alta, era feia, era maluca, sabe lá o que ele viu nela. Se bem que Carolina era loura e tinha uma maldadezinha, sabe coisa de garota esperta? Gente maluca não costuma ser burra.

Ele também gostava das montanhas. De costas pra rua Pará, uma montanha do lado da outra, não tinha fim de mata atlântica em Mambucaba. Gostava mais das montanhas que da praia, a Avenida Brasil dava de frente pro mar, e no mar tinha ilhas, uma delas já tinha visitado de bote, e do lado direito da praia tinha a praia do Coqueiro, um paraíso, Mambucaba não foi um lugar que Deus esqueceu.

E justo ontem, tinha começado a preparar o céu do próximo quadro do doutor Otávio. Ninguém passava do primeiro quadro, todo mundo tinha na parede o quadro das montanhas, que era o quadro modelo do doutor Otávio, o quadro das montanhas pintado por ele mesmo. O irmão do meio tinha um quadro igual, na parede do corredor ficavam dois quadros, o dele e o do irmão, os dois iguaizinhos, os dois pintados pelo doutor Otávio, mas ninguém admite isso.

Otávio era doutor porque era velho. E não era professor porque ficava puto quando um aluno pintava errado, então por isso ele pintava em cima das grosserias do aluno, foda-se, mais importante era entregar um quadro bonito pro pai e pra mãe, os pais diziam ó, como meu filho pinta bem.

O coração batendo forte não conseguiu responder, _ Tá rindo de quê, babaca? Como quando faz muito frio às vezes, juntou os cacos, jogou no lixo, o outro não ficou satisfeito, ficou mais bravo ainda quando ele acabou.

Mambucaba não foi um lugar que ele esqueceu.

0


0 likes

Tags:

Vanessa Agricola

Autor

Vanessa Agricola Moo

Seu e-mail não será publicado.