crônica

E EU QUE ERA TRISTE

8 de outubro de 2015

Hoje é a primeira vez que saio de casa depois do nascimento da Teresa. Menos 16 graus aqui fora. O vento frio, a luz do sol, o gelo na calçada, me dão vontade de gritar: _Eu não estou mais grávidaaa! Mas a emoção é tanta que fico calada. Trato de fechar os olhos e aproveitar ao máximo a sensação de estar sozinha. Respiro o ar congelante. Tenho o impulso de abrir os braços, igual no Titanic.

Cuidado antes de ter filhos. Você pode se tornar essa pessoa muito estranha que fica muito feliz só de ir até a esquina. Ou de fumar um cigarro e tomar uma cerveja (mesmo que você não fume e não goste de cerveja). É simplesmente um êxtase reviver aquele tipo de vida que só os sem-filhos têm. Passar uma madrugada baixando música, uma manhã de domingo lendo a Folha…

Outro dia, no meio do dia, Joãozinho e Maria dormiram, ao mesmo tempo. Foi um momento mágico, os dois dormindo! Preciso aproveitar esse momento para fazer alguma coisa que não faço há anos, sei lá, jogar um tarô. Mas sabe o que eu fiz? Comprei brinquedos pros dois na Amazon. Aí quando terminei, os dois acordaram ao mesmo tempo chorando. Corri prum quarto, o pai pro outro.

Cuidado antes de ter dois filhos. Você pode acabar com o seu casamento. Se não houver amor, mas muito amor mesmo, sobrando, daqueles que transbordam e descartam o tesão, roupas bonitas, cabelos lavados, nem tenha filhos. Compra um gato.

Tenho conversado muito com Doutor Paulino sobre isso. Desde que sou mãe eu já não sei mais quem eu sou. Eu que só pensava em trabalhar e nunca mais trabalhei. Eu que queria tanto ser roteirista e recusei um trabalho pra TV Cultura. Eu que nunca mais pintei o cabelo, nem fumei maconha.

Antes do projeto maternidade uma guru Indiana me avisou que eu não ia achar fácil ser mãe. “Filhos demandam muito tempo”. Mas eu não imaginei que fosse todo o tempo do mundo. E também não imaginei que eu ia querer passar o tempo todo com eles. E ia dispensar a babá, e querer dar todos os banhos, e tirar todas as melecas, e analisar a consistência de todos os cocôs (e cheiros!).

O que restou daquela garota cuja razão da vida era a independência, Doutor Paulino? Aquela garota que entrava no carro, abria as janelas, ligava o som alto, e ia até Paraty sozinha ler livros. Aquela Vanessa que não ia casar e hoje não abre uma lata sem pedir pro marido. O senhor está me entendendo? Eu virei a mãe da Maria e do Joãozinho? A mulher do cicraninho? Um pedaço de nós quatro? Se for eu não me importo.

(E quem tiver um analista que responda às suas perguntas, por favor, me manda o contato.)

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Crônica publicada na revista AMARELLO, número 19, sobre a UNIDADE

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Vanessa Agricola

Autor

Vanessa Agricola Moo

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