crônica

– TCHAU, BUBU!

30 de agosto de 2017


Hoje um urubu morreu na praia. Quando a gente chegou ele já estava lá, mortíssimo, barriga pra cima, como um frango com as perninhas dobradas, a onda vinha e trazia ele para mais perto de nós na areia. – Olha! Meu filho foi o primeiro a reparar.

Não sou muito chegada a nada que voa. Fui atacada por um quero-quero quando era criança. Tenho ojeriza a pombas. Nem mesmo um passarinho bonitinho. Você pode imaginar o que eu sinto por um urubu? – Eca! – Eca!, repetiu minha filha.

Crianças. É preciso tomar muito cuidado porque elas repetem tudo o que você fala. E talvez não seja muito correto falar “eca” sobre uma criatura morta, mesmo sendo um urubu, eu acho. Depois deles saberem que se tratava de um urubu, pudemos comprovar o fato. Teresa chamou o urubu de “bubu”, e o Antônio: – Tadinho do urubu.

A gente passa um tempo fingindo que somos seres grandiosos com grandes valores, temos que fazer esse papel. Que temos compaixão com os urubus. O que você faria por um urubu morto da praia se os filhos não estivessem ali do lado te olhando, esperando você fazer alguma coisa?

O pai disse: – Vamos cavar um buraco.

Heróico, pegou o urubu pelas pernas, – O que você está fazendo?? Minha respiração parou. Deitou o urubu na areia, cavou um buraco (as crianças ajudaram eu ainda petrificada de nojo só olhei). O pai pegou o urubu pelas pernas de novo e o colocou no buraco. Foi um momento de comoção pra mim. Pelo pai ser o pai, pelo que fez. Os filhos são os filhos.

Enterramos o urubu todos juntos. Em silêncio, como se já tivéssemos enterrado um urubu antes e soubéssemos que era preciso haver silêncio. Jogamos areia por cima do urubu. Eles afofaram (eu não) a areia por cima da cova do urubu até formar um montinho. Peguei um graveto (fiz algo), outro, montei uma cruz e coloquei em homenagem.

– Tchau, bubu!, Teresa despediu-se.

0
Vanessa Agricola

Autor

Vanessa Agricola Moo

Seu e-mail não será publicado.