crônica

PRAIA DE RICO

6 de janeiro de 2018


A praia é bonita. E também plana, boa para andar, mas eu não ouso levantar da minha cadeira. Agora mesmo passou um cara em cima de um aparato de quatro rodas, tipo um skate elétrico, já viu? Eu não entendo esse cidadão. Nem as duas garotas no jet-ski, com as duas bundas perfeitamente redondas, esmerilhando ao lado de criancinhas e da minha bunda.

Praia de rico tem dessas pérolas. Por sorte a aberração não ataca a maioria, desde hoje de manhã foram só o cara do skate elétrico e as garotas do jet-ski, mas mesmo assim rola um desfile de beldades, maiôs, tênis, essa gente que aproveita a areia plana para caminhar olhando para o lado das casas e não do horizonte. 

Seria triste. Mas eu tenho a caipirinha com a cachaça que o Pedro me deu no Natal. Vou ali no mar, depois volto pra minha cadeira, dou mais um gole da caipirinha, mar, cadeira. Meus filhos cresceram a ponto deu conseguir ler um livro na praia e nada mais me abala.

Mas aí, ontem, o mais velho reclamou de dor de ouvido, e todo um histórico de otite levantou minha bunda de férias e me trouxe de volta, dirigindo um automóvel rápido até o Pronto Socorro, vinte minutos distante aqui da praia de rico.

Chegamos no PS de noite. O brasileiro, este solícito, o moço que me mostrou onde era a fila (eram várias), o moço da recepção que me ajudou a preencher a ficha, suavizaram a preocupação com a eficiência do lugar. Havia sujeira, mas o médico que passou correndo tinha cabelos brancos, e não tinha ninguém sangrando. Mesmo assim, ficha e senha em mãos, achamos melhor deixar nosso filho esperando no carro. Eu fiquei encarregada de continuar ali dentro até ouvir ele ser chamado.

Antes de me sentar, procurei o banheiro, não havia fila, testei a maçaneta da porta, aberta, – Tem gente!, gritou uma mulher que vi sentada na privada, – Desculpa, estou mijando pelo cu.

Sábia decisão deixar o moleque no carro. Toda a normalidade do começo foi de um segundo ao outro substituída pelo cheiro de diarreia, a sala vazia ficou cheia, foi entrando um, depois outro, um homem com um buraco na perna que dava pra ver o osso, uma menina na cadeira de rodas tremendo muito, uma criança com tosse de avô. Saiu Marizete (a mulher do banheiro) e sentou em uma cadeira, ao meu lado. – Não dá tempo de trancar a porta.

Eu deveria ter oferecido algo, uma conversa, como fez a outra mulher que mais adiante se sentou ao lado de Marizete e passou a ampará-la, como uma brasileira. Não consegui. Tive medo dela cagar nas calças perto de mim e levantei, logo que ela disse: – Ai, tá doendo muito, fingi ter ido buscar uma água no bebedor que nem água tinha, depois sentei em outra cadeira, com a cara de pau que deus me deu, bem longe, porque eu não queria mais olhar pra Marizete. Nem pra menina que tremia na cadeira de rodas, nem a criança com tosse, nem a perna do homem, mas eu não consegui não ver. Olhei de novo para todos eles. Ouvi a enfermeira gritar seus nomes. Elis Regina! Marizete da Silva! Genivelson Junior! Antônio!

Antônio não precisou de sobrenome para ser identificado. Todo resto eram Elis Regina, Marizete, Genivelson, e a emoção que me abateu. Quando meu filho voltou do carro, um príncipe de pijamas no colo do pai, um galã de cinema, me deu uma certa culpa. Vontade de abraçar Elis Regina, Marizete e Genivelson e… – ANTÔNIO!!

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Vaca

Autor

Moo

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