crônica

BEIJO POR BEIJO

7 de outubro de 2015


Era domingo, eu tinha tomado um pé na bunda, talvez eu fosse a pessoa mais triste do planeta. Tentei comer uma pizza, sozinha, assisti uma série americana, mas é uma dor que nada adianta. Nada faz você achar que o mundo é mais que uma bosta que caiu na sua cabeça.

Sorte que tinha aquele maço de cigarros velho dentro do pato com os cardápios de pizza. Taí uma coisa perfeita pra fazer , voltar a fumar, foda-se a culpa. A culpa você traga e esbafora, e lembra daquele dia que ele chegou de madrugada e você teve certeza que estava com outra.

Estou cansado, ele disse, você já quer brigar? Eu só quero que você vá pra puta que pariu antes que eu me esqueça. E logo me esqueci que ele não falava uma palavra da minha língua: Sweaty, calm down! Calm down o seu cu!

É vergonhoso. É terrível amar uma pessoa que não ama você de volta. E você fica tentando dar um jeito daquilo funcionar mas não funciona. E não é culpa da pessoa. Quiçá ele quisesse ter me amado, muito.

Recentemente nos encontramos, e ele me perguntou por que eu errei tanto, agora você é de outro, lamento. Eu disse, relaxa, amigo. (Ele acabou de me contar que esta saindo com quatro ao mesmo tempo, acho que ele é meu amigo).

Mas naquele domingo nada disso me ocorria. Nem que um dia seríamos amigos, nem que um dia eu seria de outro, meu pensamento era só, o amor nunca vai dar certo, eu vou morrer aqui sozinha, trancada nesse apartamento, que nem uma música do Leandro e Leonardo.

Mas aí, em janeiro, eu conheci um coitado num bar do Itaim. Ele me disse eu te amo em duas semanas, coitado, descontei no coitado tudo que já me fizeram até então: Sexo sem a menor intenção de gostar,  me aprovetei da companhia, pra jantar fora, ir no cinema, e se ele estava se apaixonando e infeliz, pra mim, tanto fazia. Deixei o coitado ter esperanças, deixei o coitado me escrever coisas, até que o coitado me comprou uma pulseira, cara, aí eu tive a decencia de chamar ele pra almoçar, num restaurant bem cheio, e disse não é você, sou eu.

Pensa um cara que me rogou uma praga. Num futuro muito próximo, sei lá, me apaixonei por um homem casado com uma chinesa.

Estava a toa na vida, dançando no Bar Secreto, quando esse sujeito me apareceu vestido de preto. Claro que ele não se apresentou dizendo, oi, tudo bem, eu sou casado, mas quando eu já achava que ele era o amor da minha vida, ele acabou me contando que tinha uma pessoa, e que ela estava na China, e que ela tinha acabado de voltar, e que ela morava com ele, ainda.

Docinho, calma! É só uma questão de casa, ela não tem onde morar, eu não posso mandar ela embora, ela não tem familia, ela não tem grana, a gente nem se fala porra!

Você acredita que eu acreditei nessa história?

Fiquei quase um ano esperando ele se separar da chinesa.

Eu tinha certeza que ele me amava.

Aí eu dei de cara com os dois numa festa, São Paulo é pequena, ele e a chinesa se lambendo no meio da pista.

E a chinesa era linda, o dobro do meu tamanho, eu sempre imaginei ela uma coitadinha, feia…

Promessa: Fiquei ruiva, revi uns filmes de pé na bunda, Pequeno Dicionário Amoroso (já viu?); a Andrea Beltrão se separa do Daniel Dantas e desabafa com uma amiga que a separação é como se te arrancassem um braço…

É isso. Ninguém vai me arrancar mais braço nenhum.

Mas aí ele entrou, eu estava um pouco bêbada, tudo ficou meio assim em câmera lenta, a música ficou mais baixa, as pessoas falando sumiram, a promessa…

Ele esta aqui ainda. Atento aos seus próprios afazeres, sem dar a mínima se estou a horas sem lhe dirigir a palavra, cantarolando outra música sertaneja: – Andei, andei, andei, até encontrar…

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Vanessa Agricola

Autor

Vanessa Agricola Moo

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