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NA COPA DO MEU PAI

15 de agosto de 2017


Na copa, aquela bagunça, o banheiro da empregada cuja porta dava pra mesa. Péssima arquitetura. A gente ouvia o cocô da empregada, a descarga. Você ria. Toda a sua gargalhada naquela copa. Tanta briga. As paredes manchadas de mofo não davam conta. “Seu Agricola, tem que passar tinta”. Essa semana eu vou pro sítio, na volta! A hora do almoço, a hora do lanche (carioca não janta), seu último macarrão à bolonhesa. Uma receita italiana que você pesquisou porque é o prato preferido do Antônio. Estava perfeito. Na mesa daquela copa, foi nosso último encontro? Eu, você, meus filhos, seus filhos, minha mãe, a Lu, nossas famílias. Que dia. A pizza de milho verde que você achava tanta graça que eu gostava de pizza de milho verde, “só você, filha”. Também só você insistindo se alguém não queria mesmo um pouco de Leite Moça no café. Não quer experimentar, filha, não quer? Eu nunca quis. Nem o presunto no pão doce. Nem o açúcar na linguiça no pão francês. Que gosto será que isso tem? Outro dia abri o livro que você deu para o meu filho e chorei. Ele perguntou porque eu estava chorando, eu disse que estava com saudade do vovô Carlos. Ele entendeu: ele morreu, né, mamãe. Eu fiz que sim. Agora pede pra eu ler o livro do dinossauro que você deu pra ele, toda vez. “Mamãe, lê o livro do dinossauro do vovô Carlos”. O livro mais lindo de dinossauros. Você mandou junto um bilhetinho (nunca rabiscou um livro). Filha, achei este livro pro Antônio. Te amo. P.

 

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Vanessa Agricola

Autor

Vanessa Agricola Moo

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