crônica

BOI

20 de maio de 2016

Eu entendi só naquela hora, quando você entrou no shopping e me fez um sinal de pra que lado vamos, só naquela hora eu percebi que você estava puto comigo. Depois de ter passado o dia rindo, e cansado, eu percebi que você estava cansado mas como você estava rindo, finalmente você mostrou que estava puto.

Você é falso. Vai saber desde quando você estava puto, rindo pra agradar todo mundo, e puto por que motivo? Você espera que alguém compreenda todas as coisas que te chateiam? Todo mundo te aprontou alguma, você é uma vítima. Você e essa sua cabeça baixa. Sempre rindo mas ruminando coisas.

Eu nem procurei te entender na hora, porque nós tínhamos coisas que precisavam ser feitas, e você nunca faz coisa alguma, você morre de preguiça de fazer as coisas, era eu quem tinha que fazê-las e logo, para a gente ir embora daquele shopping o mais rápido possível.

O que eu ainda não aprendi, porque vivo esquecendo o que você já me provou por A + B, é que não posso ignorar um lapso da sua verdade. Você não está sempre bem. Não está sempre achando tudo engraçado. Não, não. Você está sempre puto. Posando de boi bonzinho. Manso. Submisso.

Mas qual é o seu próximo passo. Explodir por causa de um pão de queijo. Eu ainda perco meu tempo me defendendo, desculpa eu comi o último, você disse que não queria. Mentira sua. Por que você mente uma bobagem dessas? Por que você não fala as coisas? Por que você se coloca no papel de vítima? E eu de egoísta. Eu não te ofereci o último pão de queijo. Eu sou um grosso. Eu sou um cavalo. Eu sou o seu algoz, não é, boi? Aí você vem me insultar, por causa do pão de queijo e outros assuntos de anos, que só depois de anos você toca no assunto. Do que você está falando agora?

Você me enlouquece, eu falei pra Vera. E a Vera também acha que enlouqueceria. Um boi não é fácil, ela me disse. Ela te conhece. Eu te conheço mais que a Vera, mas ela tem a vantagem de não ser sua íntima. De te ver de fora, de achar que você é que é um egoísta.

Sabe qual foi a última da Vera? Ela falou que você não me ama.

Mas eu ando tão preocupado com seu estado de loucura, que nem consigo me concentrar que você não me ama. Que diferença isso faz agora?

Eu tenho pensado muito em você por causa da Vera. Parei pra pensar que coisa mais egoísta é você deixar outra pessoa passar a vida preocupada com a sua.

Eu vou te lembrar, porque você esquece as coisas, eu me preocupo com você desde quando o Rudi te traiu naquele Carnaval. Você me ligou, que o Rudi te traiu, que você foi atrás e descobriu tudo, uma prostituta dessas de praça, bem feia, você me falava.

Você ficou tão magoado. Você me contou, você contou pra todo mundo, você contou pros seus irmãos, você ligou pros amigos do Rudi, você ligou pra pessoas que você nem conhecia direito pra contar que ele te traiu com uma prostituta bem feia dessas de praça.

Eu fiquei realmente preocupado com você aqueles dias. Coitado. Coitadinho. Eu vi você tão incapaz de lidar com você mesmo. Coitado. Coitadinho. Ele passa horas sozinho assistindo televisão, todas as séries e filmes do mundo, mas não sabe resolver as coisas com ele mesmo. Imagina contar isso pros amigos do Rudi, que vergonha.

Eu imagino o quanto você deve remoer essa história. A prostituta, as pessoas falando da sua vida, a perda do Rudi. Você era alguém do lado dele. Um boi, mas era um boi com dono. Um boi cuidado. Um boi que alguém defendia, mesmo sendo um louco.

Nada como o amor para nos redimir, não é mesmo. O Rudi te amava.

A Vera disse que eu te odeio.

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Vanessa Agricola

Autor

Vanessa Agricola Moo

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