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Sobre o não pensar e Il faut oublier

28 de junho de 2017

– Doutor, eu vivo pensando, é porque a tragédia é bonita?

– Olha, nas savanas africanas, quando um africano está diante de um predador, ele deixa de ser um homo sapiens e passa a ser um homo bio. Ou luta ou foge, ou mata ou morre, compreende? Só que a gente, nós que não somos africanos, a gente desperta esses mesmos mecanismos primitivos que causam um alarde… uma tragédia… Pra quê? Se é possível conviver suavemente…

– Desculpa interromper, é que eu escuto o doutor falando assim, sempre tão tranquilo. É fácil conviver com o senhor!

– A gente não escolhe os produtos nas prateleiras do supermercado? Então por que é que a gente não escolhe também o pensamento? Por que é que a gente não reconhece o que são pits, sabe o que são pits? Picuinhas, irritabilidades e tolices.

– Os famosos bullshits.

_ Exatamente. No mínimo os bullshits nós devemos ignorar.

– Ok, os bullshits, mas e uma tragédia? O pensamento ele não é um dono que nos guia como um cachorro, durante uma tragédia doutor?

– Não. Nós é que levamos o pensamento para passear.

– Mesmo quando há sentimento envolvido? Um perda. Uma desilusão amorosa. É diferente de pensar picuinhas, por isso eu lhe pergunto, diante uma tragédia, não é o pensamento que leva a gente para passear?

– De maneira nenhuma. Mas sim é só o sofrimento que nos guia. E aí é que está, o sofrimento parte do pensamento e o pensamento é você quem controla.

– Colocar isso em prática… mas vamos voltar sobre o fracasso, que é o tema do seu novo livro. Eu estava comentando com o doutor antes de começar o programa, eu que estou escrevendo um livro também, o quanto eu fico assombrado na frase que não deu certo, o ponto, a frase que não deu certo de novo…

– É insuportável. O pensamento desgovernado é insuportável.

 

– É esse o problema, doutor, nós pensamos muito?

– Pensar é bom. Dar atenção a muitas coisas, refletir sobre muitas coisas, olhar a grande fotografia, ou the big picture, usando um outro termo dos maiores americanos, que são os maiores especialistas sobre este tema do pensamento sobre o fracasso.

– Os americanos, obsessivos com o fracasso…

– O fracasso e todos os dissabores que temos, sejam eles amorosos ou econômicos, nós e os americanos, qualquer tipo de acontecimento que não deu certo fica mais no cérebro.

– Por quê, doutor?

– Porque é humano. De fato é mais comum que nós registremos os fracassos com todos os detalhes e sabores que nós não degustamos enquanto outras coisas que deram certo aconteceram. Hoje, por exemplo, eu peguei um táxi, ele me trouxe até aqui em segurança, não havia trânsito, na rádio tocava uma música boa…

– Eu vim com meu carro escutando Maysa.

 

“Ne me quitte pas

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas”

 

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Vaca

Autor

Moo

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